contos

Pedro

Gerson Castro

18 abril 2009

A aprovação de Mauricio no vestibular não foi surpresa. Mãe e irmão já sabiam que esse seria o resultado. E não poderia ser outro: enquanto os demais adolescentes se ocupavam em aborrecer os pais com noitadas e rebeldias, Mauricio dedicava-se ferozmente aos estudos.

Mauricio não fazia o gênero nerd. Mas desde o divórcio dos pais, optou por um comportamento exemplar, evitando aborrecimentos para a mãe, dona Amélia. Para o jovem, já bastavam as criticas que a mãe recebia em função da separação. Muitos diziam que uma mulher sozinha não seria capaz de criar dois filhos. Dois filhos homens. Logo seriam adolescentes. Não demoraria para que um deles aparecesse na casa da mãe com a noticia da gravidez de uma namorada. Mauricio arrogou para si a função de calar a boca daquela gente faladeira, que desconhecia os apertos em que viviam.

A mínima pensão paga pelo pai dos meninos não bastava para as despesas. D. Amélia sustentava os filhos com um pequeno salário de vendedora. As mínimas comissões eram poupadas, cada centavo, para pagar o estudo dos filhos. Mauricio, dono de incomum senso de justiça, acreditava que era necessário um sacrifício da parte dele também. Assim, aboliu farras e gandaias. Cresceu sério e responsável, dedicando aos livros cada minuto livre. Imaginava uma próspera carreira como juiz de direito, que glorificariam D. Amélia e a educação que dava aos filhos e poria fim aos comentários daquela gente que, para Mauricio, por não ter muito que fazer, se metia na vida alheia.

Mauricio, não era, no entanto, nenhum santo. Às vezes tinha uma imensa vontade de se livrar dos livros e apostilas. De sair pela noite. Tomar um porre. Ir à shows e festas. Namorar, irresponsavelmente, várias garotas ao mesmo tempo. Como via fazer os colegas da escola. Sentia vontade de sair de casa. De libertar-se das correntes e algemas que ele mesmo havia se posto. No entanto, Mauricio não sabia onde havia posto as chaves dos grilhões. Melhor, sabia sim. Era ele o próprio carcereiro. Mas a consciência pesava-lhe quando imaginava o desgosto da mãe, sempre às voltas com contas e dívidas e anunciando: “Esse mês vamos ter que apertar os cintos. Não sei de onde tirar dinheiro para pagar as contas”. Aí, lembrava-se de porque fazia tanto sacrifício. Literalmente, um sacrifício. Afinal, era a sua juventude, tempo certo dos desatinos e apropriado aos erros, que Mauricio abatia por meio dos estudos. “A golpes de apostila”, pensava. Mas, logo imaginava a carreira, a toga, o sucesso.

O esforço não poderia ter melhor resultado: segundo lugar geral nos exames. Primeiro colocado do curso de direito. Orgulho da mãe. Inspiração para o irmão mais novo. Renovação para os ânimos do próprio Mauricio, à beira de um surto. E a inveja dos primos. Talvez essa tenha sido a maior recompensa para Mauricio. Não ter uma namorada custava-lhe comentários maldosos. O próprio avô havia insinuado a homossexualidade do menino. E dizia para a filha: “Sabia que sua irmã achou uma camisinha no bolso do Bruno? Esse sim, é neto meu. Quinze anos e já anda com camisinha.” D. Amelinha sentia uma vergonha tremenda diante dos comentários do velho pai, machista incorrigível. E, por causa do comentário sobre a camisinha, que rapidamente espalhou-se pela família, tornando-se mitológico, Maurício desenvolveu um grande ódio por Bruno. E decidiu: “Farei com que ele exploda de raiva e inveja. Sentirei prazer quando receber, junto com meu diploma, a notícia de que Bruno é um pai desempregado”.

Movido a rancor e esforço, Maurício destacava-se na faculdade. Era sempre notado. Seus trabalhos, comentados. Suas apresentações, assistidas e elogiadas. No entanto, Mauricio não era o único naquele campus que chamava a atenção.

Pedro era o presidente do diretório acadêmico – o famoso DA – de direito. O autêntico revolucionário estudantil. Um Che caricato: camiseta vermelha, boina, jeans desbotado, barba por fazer, cabelos compridos. Sempre um livro a tiracolo; ora era O manifesto do partido comunista, ora O que é a propriedade privada. Para calouros e veteranos, tratava-se de um gênio, um líder, um visionário. Para as mocinhas do curso, fossem as bem-nascidas, fossem as bolsistas, Pedro era uma tentação, atraente em seu charme propositalmente despojado.

Para Mauricio, Pedro era um impostor, um charlatão, um enganador. Mauricio tinha certeza de que, se apostasse, ganharia fácil: nenhum daqueles exemplares surrados que aquele falso carregava tinha sido lido. Afinal, um sujeito metido em greves, manifestações, atos públicos e assembleias na mesma proporção em que estava presente a festas, calouradas, cervejadas, vinhadas e congêneres não deveria ter tempo para ler e estudar. O que explicava as notas medíocres. No entanto, sua presença e carisma magnetizavam. Sua voz, alta e potente, convencia e agregava. Durante os discursos, poucos – alem de Maurício – percebiam os erros cometidos por Pedro. O que para alguns significava ruptura com os dogmas da academia pequeno-burguesa e liberdade de pensamento, para Maurício eram simples falta de leitura e estudo.

Havia, no entanto, algo em Pedro que Maurício invejava. Maurício não conseguia entender como as garotas da faculdade não percebiam que aquele desmazelo era falso e milimétrico; algo montado. Não entendia como poderiam se interessar por um sujeito dissimulado como aquele. Um enganador. E por aí, chega-se a grande frustração de Maurício: sua virgindade, para ele mesmo um assunto mal-resolvido. Não que faltasse vontade. Mas Mauricio não era o mais charmoso. Não era feio, pelo contrário. Saiu ao pai: alto, olhos verdes e cabelos lisos, muito pretos, contrastando com a pele, claríssima. O que não tinha, porém, era carisma. O tempo que passou estudando perdeu-o em contato com o sexo feminino. Agora, a proporção parecia invertida. O tempo dedicado aos estudos tinha sido grande perda, já que sentia a carência e a necessidade que só uma mulher satisfaria. Qualquer mulher, desde que disposta a transar com ele. E na sua memória, não havia nenhuma em tais condições. E se houve, Mauricio a rechaçou, pensando no dever a cumprir. Lembrava-se, não sem certo rancor, das festas que deixou de ir para estudar. Da viagem que a turma da escola fez para Ouro Preto. Os relatos davam conta de que até o mais imbecil da turma, um certo Gabriel, havia ficado com uma garota. Lembrou-se de Bruno e, súbito, teve uma vontade de socar-lhe a cara gorda. Um murro para cada mulher nua que Bruno tivesse visto.

Mauricio criou nova obsessão: precisava se livrar daquela virgindade humilhante. Humilhante porque, imbecis como Pedro e Bruno tinham-na perdido sem um pingo de esforço. Enquanto ele, inteligente como poucos, não sabia como usar todo o conhecimento que tinha para atrair as mulheres.

Tomou então uma decisão. Passaria a freqüentar as reuniões do DA. Foi duro assumir. Mas o que Mauricio sentia era despeito. Inveja de Pedro, pelas mulheres que lhe ficavam próximas, à espera de um convite para uma manifestação e uma ida à sua casa para ver os folhetos que seriam distribuídos na próxima passeata. “Incrível” – pensava Mauricio – “em como podiam crer em imbecilidades como essa”. Imbecilidade, porém, que, naquele momento, era a grande vantagem de Pedro sobre Mauricio.

A chegada de Mauricio à porta do DA foi uma surpresa. Os que ali estavam não o esperavam. Nunca o esperaram. Conheciam o almofadinha, que nunca se misturava; o aluno critico, que parecia ter ácido no lugar de saliva: sempre a espreita com comentários destrutivos. Mauricio olhou o ambiente à sua volta. Livros e papeis desordenados, espalhados, sobre uma mesinha de centro e sobre velhas prateleiras prestes a cair. Cinzeiros cheios e um forte cheiro não identificado por Mauricio compunham o lugar. A sala, pequena, era mobiliada por um sofá, além da mesa. Nas paredes, cartazes, folhetos e recortes de jornal. Um ambiente caótico, que para Mauricio não fazia o menor sentido. Pedro encarou Mauricio.

E foi naquele mesmo instante, quando os olhares se encontraram, que Pedro foi assaltado por remotas memórias. Lembrou-se das notas baixas. Da antipatia conquistada pelo mau desempenho escolar. Das piadas e apelidos. Do escárnio e zombaria dos colegas. Das vezes em que quis brigar e bater, e das vezes e que, de fato, bateu e brigou. Desejou que todos os mauricios do mundo morressem naquele momento. E, dolorosamente, enquanto encarava o rapaz deslocado, ali na porta olhando a tudo com desprezo, Pedro pensou: “Por que eu não sou o Mauricio? Por que diabos, não sou como ele?”.

Mutum, 21 março 2009 – 26 abril 2009.

<!– /* Font Definitions */ @font-face {font-family:”Cambria Math”; panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:roman; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;} @font-face {font-family:Calibri; panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:swiss; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:-1610611985 1073750139 0 0 159 0;} /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-unhide:no; mso-style-qformat:yes; mso-style-parent:”"; margin-top:0cm; margin-right:0cm; margin-bottom:10.0pt; margin-left:0cm; line-height:115%; mso-pagination:widow-orphan; font-size:11.0pt; font-family:”Calibri”,”sans-serif”; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-bidi-font-family:”Times New Roman”; mso-fareast-language:EN-US;} p.MsoNoSpacing, li.MsoNoSpacing, div.MsoNoSpacing {mso-style-priority:1; mso-style-unhide:no; mso-style-qformat:yes; mso-style-parent:”"; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:11.0pt; font-family:”Calibri”,”sans-serif”; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-bidi-font-family:”Times New Roman”; mso-fareast-language:EN-US;} .MsoChpDefault {mso-style-type:export-only; mso-default-props:yes; font-size:10.0pt; mso-ansi-font-size:10.0pt; mso-bidi-font-size:10.0pt; mso-ascii-font-family:Calibri; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-hansi-font-family:Calibri;} @page Section1 {size:595.3pt 841.9pt; margin:3.0cm 2.0cm 2.0cm 3.0cm; mso-header-margin:35.45pt; mso-footer-margin:35.45pt; mso-paper-source:0;} div.Section1 {page:Section1;} –>

Todo mundo morre um dia

Gerson Castro

Finalmente Casemiro morria. Após muitas incertezas e pavor, provava a si mesmo, no seu último instante de consciência, que seu medo era infundado. Casemiro não tinha medo de nada. Exceto de não morrer. Medo incomum, raro. Inédito, até.

Entre as várias oportunidades que todos damos à morte, Casemiro escapou logo nas duas primeiras. Talvez oportunidade não seja a palavra certa. Muitos procuram adiar o fatídico encontro com remédios, ginásticas ou dietas. Mas nunca saberemos o número de vezes em que a morte passou sibilante ao nosso lado. Alguns dizem ter sentido calafrios. Tido pressentimentos. Quando, por exemplo, atravessaram uma rua e não viram o último carro, que vinha em alta velocidade. E que – fatalidade – acaba atingindo a última pessoa que, desafortunadamente, resolveu correr juntamente. Há ainda aqueles que perdem vôos. Atrasam-se por causa do trânsito. E, irritados, logo se acalmam ao saber da tragédia aérea de que escaparam. E também os que deixam a agência bancária no exato momento em que entram os assaltantes. Mais tarde, acompanhando o noticiário na TV ficam sabendo dos tiros e das duas vítimas fatais.

A primeira escapada aconteceu no parto de Casemiro. O menino nasceu prematuro, em um parto complicado, visto que a gravidez era de risco. Por pouco não se tornou natimorto. E, seis meses após o nascimento, por azar muito grande, adoeceu. Meningite, doença das mais graves, que avançou rapidamente. A criança entrou em coma. E, desenganada pelos médicos, recuperou-se espantosamente na terceira semana de inconsciência. Difícil dizer, naqueles instantes iniciais de gato-e-rato entre Casemiro e a morte, quem driblou quem. O fato é que o menino poderia ter morrido bem antes e se livrado da sua futura, porém breve, angústia.

Casemiro cresceu ouvindo histórias da família de como havia se recuperado milagrosamente. Praticamente uma ressurreição. Até então, acreditava que tudo aquilo era muito normal. Ignorava, na tenra idade, filosofias maiores sobre causalidades e determinismos. Isso até descobrir, numa inocente tira em quadrinhos, a possibilidade da morte. E se havia essa possibilidade, o inverso também deveria haver. Era um dia qualquer; talvez chuvoso, talvez ensolarado. Pode ter sido à tarde; ou à noite. O fato foi que o pai de Casemiro, ao chegar de uma das freqüentes viagens que fazia a trabalho, deu ao filho a revista de bordo recebida no avião. “Tem quadrinhos, filho. Sei que gosta. Leia-os”.

Agradeceu. Gostava mesmo de gibis, cartuns e tirinhas. Seu personagem preferido era Calvin, o menino de imaginação fértil que conversava com Hobbes, o tigre de pelúcia. Excetuado o tigre, Casemiro era uma espécie de Calvin: convivia com monstros no armário e embaixo da cama e não comia verduras. Para felicidade de Casemiro, a tal revista tinha várias tirinhas do Calvin. Entre elas, a que lhe marcaria para sempre.

Nela, Calvin comentava com Hobbes: a gente sabe que é adulto quando descobre que pode morrer. Não era exatamente essa a citação, mas qualquer coisa nesse sentido. Aquilo nunca havia passado pela cabeça de Casemiro. O que é natural: o menino tinha então dez ou onze anos. Brincava de policia e ladrão, mocinho e bandido, pirata e explorador espacial. Vencia inimigos imaginários com espadas, revólveres e pistolas laser desintegradoras. Mas nunca imaginou o que acontecia com os vilões a que punha fim. De repente, sua cabeça infantil fervia com pensamentos estranhos à idade. Quer dizer que ele ia morrer também? Mas quando seria? Assim que se tornasse adulto? Lembrou-se então das histórias sobre seu nascimento e pensou: era imortal. Foi quando brotou o medo. Se a morte não conseguiu levá-lo quando bebê, como ia fazer quando fosse maior? Será que era invisível para aquela caveira de manto? Será que a morte se parecia mesmo com uma caveira? Será que ele ia ficar correndo dela para sempre? Perguntou aos mais velhos. Ouviu historias sobre “ficar para semente”. Nunca entendeu o significado da expressão. Mas apavorou-se assim mesmo.

Procurou o avô Casemiro. O menino havia sido batizado com o nome do avô materno. Uma homenagem a outro sobrevivente. E, talvez por terem o mesmo nome, surgiu uma forte ligação entre ambos. Para Casemiro-menino, o avô era a pessoa mais legal do mundo. Tinha vindo para o Brasil jovem ainda, fugindo da guerra. Freqüentemente avô e neto passavam horas conversando, o velho contando para o menino histórias da fuga e da Itália. Além disso, o avô era a pessoa mais velha que conhecia. E havia escapado da morte nos campos europeus. Depois da descoberta que havia feito, isso era apavorante e encantador ao mesmo tempo. Podia ser que o avô também fosse imortal. Talvez ele tivesse “pegado” a imortalidade do avô, junto com o nome. Naquele dia, o avô desconversou e distraiu o neto com outras histórias e casos. E o tempo passou.

E como convém às crianças, Casemiro trocou aquele medo por outros: o lobisomem que arranhava a parede do seu quarto durante a noite, o fantasma que se escondia na cozinha para surpreendê-lo quando tivesse sede e o vampiro que o aguardava atrás da porta do banheiro, esperando-o. E esses também foram substituídos. Quando Casemiro fez quinze.

Ah, os quinze anos! Os monstros vão-se embora. O medo agora é o de que Júlia não aceite seu convite para o cinema. Por isso adiou o pedido. E enquanto não elaborou o convite perfeito – ensaiando sempre no espelho do banheiro – ia sozinho ao cinema. Ou com Gabriel, o melhor amigo. Gabriel também tinha quinze anos e também era apaixonado – não por Júlia. Para Gabriel, Roberta era a menina mais bonita da escola. Além desses pontos em comum, ambos também poderiam morrer a qualquer instante. Não que estivessem doentes; pelo contrário. Mas não se diz que para morrer basta estar vivo? E apesar dos pontos em comum, havia uma grande diferença entre os dois amigos. Um deles iria, de fato, morrer. Muito em breve.

Numa tarde qualquer, Gabriel saía da casa de um colega, onde foi disputar partidas de vídeo-game. Casemiro, gripado, não foi. Na travessia da rua, normalmente calma, Gabriel foi atropelado. O carro vinha em alta velocidade. O motorista assustou-se com o impacto e desesperou-se quando viu o corpo no chão. Prestou socorro, mas Gabriel não resistiu.

No velório, Casemiro chorou. De dor, pela perda. E de preocupação. Pensou se a morte não havia errado seu alvo. Casemiro deveria ter sido atropelado… mas estava gripado e… Fez as ligações possíveis e apavorou-se. Perdeu o sono por semanas. Precisava conversar com alguém. Procurou a mãe, que instruiu-o a falar com o pai.

Na ausência deste, procurou o avô. E foi até a casa do velho querido. Tocou a campainha da casa grande e espaçosa, decorada com humildade e bom-gosto.

- Ora se não é um dos meus netos preferidos! – exclamou o homem, grande e branco.

- E quem são os outros preferidos?

- Pedrinho e Mateus, filhos da tia Leda e Paulinha, filha da tia Manoela.

- Então não tem preferidos! Esses são todos os meus primos!

- Claro, Casemiro! Estou perto de morrer. Não posso me dar ao luxo de escolher neto preferido. Gosto de todos!

- Vô, como sabe que vim falar sobre morte?

- Não sei. Entre, rapazinho. Vamos conversar lá dentro, comendo bolo.

Casemiro-avô era padeiro e fazia deliciosos pães, bolos e doces. Não havia neto, filha ou genro que ignorasse seu talento culinário. Casemiro-neto entrou e sentou-se em uma cadeira, na cozinha enorme. Gostava da casa do avô, sempre aconchegante.

- Quer dizer que veio falar de morte? Eu sei que está triste pelo que aconteceu com seu amigo.

- Ando meio assustado, vô…

- Com o que? Quer me contar? Talvez eu possa ajudar você.

- Sabe, vô, a minha mãe sempre fala que eu sobrevivi por milagres…. que o senhor rezou muito… será que fiquei imortal? Será que a morte não me enxerga? Será que era para eu ter morrido no lugar do Gabriel?

- Claro que não, Casemiro. Vai ser difícil para você… mas tem que saber que, infelizmente, jovens morrem.

- E o que faz com que morram, vô? Gabriel era bom: obediente, tirava boas notas, ganhava presentes legais no aniversário e no Natal por causa disso. Deus não tinha motivo para dar castigo a ele.

- Não pense na morte como castigo. Ela acontece. Faz parte da vida. Viva despreocupadamente.

- Como posso ficar despreocupado? O senhor acabou de dizer que eu também posso morrer a qualquer momento!

- Claro que pode! Mas não se preocupe. Filho, a morte é algo fortuito. Acontece quando não esperamos. Salvo casos especiais. A sua avó, por exemplo…

Casemiro lembrou-se da pequena velha, de cara rosada e olhos azuis que falava um italiano enrolado e era companheira do avô. Sempre brava, mas, contraditoriamente, carinhosa. Como só os italianos sabem ser. Após rigorosos invernos na Itália, vieram para o Brasil em 1942. Queriam escapar da guerra. Para Casemiro, o fato de o avô ter fugido da guerra fazia dele quase um herói. Gostava de ouvir as histórias do seu tempo de criança, criado nos campos gelados do norte italiano. Diferente daquilo que se via na televisão: nada de sol, nem de praias. Muito trabalho e muito frio. Após anos no Brasil, diagnosticou-se um câncer na avó, D. Vanozza. Do diagnóstico à morte, passaram-se cerca de seis meses.

- Vô, não teve medo de morrer na guerra?

- Tive. Por isso fugi. Queria viver mais. Achava que eu era novo demais para morrer. Aí, ouvi falar de um lugar ensolarado, quente e tranqüilo chamado Brasil.

- E quando vovó morreu? Não tinha medo de que pudesse morrer em seguida? Afinal, ela já era velhinha, e o senhor também é.

- Não, meu querido. Depois da guerra, sempre soube que poderia morrer a qualquer momento. Como meu vizinho, Matias. Meu grande amigo. Não teve a mesma sorte que eu: não conseguiu embarcar no navio. Morreu em um bombardeio no vilarejo em que morávamos. Percebi que a morte era aleatória. Como um sorteio. Não há critérios. Mas sei que hoje, por estar velho, estou perto de morrer. É a ordem de tudo, Casemiro. Breve serei uma memória para você. Por isso não se preocupe. Você vai viver muito ainda. Aproveite.

- Como pode saber? Gabriel tinha só quinze, e eu também.

- É a mesma certeza que tenho de que morrerei logo.

Casemiro quis chorar, mas o avó o tranqüilizou. Conversaram sobre outras coisas. Futebol, escola, paqueras. Outro talento do avô: expulsar os medos e minimizar preocupações. Comeram mais bolo. Quando o sol começava a sumir, Casemiro abraçou o avô e foi para casa. Podia ser a última vez para ambos. Mas ficou tranqüilo. Aceitou as palavras do avô: morrer era algo natural. Assustador, mas natural. Como fazer prova de matemática. Por isso era importante estar preparado. Para ambas as situações.

O tempo passou. Calvin foi esquecido. E Gabriel virou lembrança dos bons dias da infância. O convite a Júlia finalmente foi feito. E aceito. Casemiro vivia um momento feliz. Namorava a menina mais bonita da escola. Tornou-se popular devido às notas e ao bom desempenho no futebol. Resultado da boa disciplina. Sempre estudioso e obediente. Destaque no campeonato de futebol do bairro. Foi nessa mesma época que Casemiro, o avô, começou a tossir irritantemente. Uma tosse seca e repetitiva. Emagreceu. Perdeu cabelos. Tornou-se uma sombra do homem enorme que havia sido. E a brancura estava sendo desfeita à força de pequenas manchas escurecidas na pele. O neto preocupava-se. Semanas antes, pouco antes dos 18 anos de Casemiro, o porteiro da escola, um homem grande que falava aos berros, mas de quem Casemiro gostava, morreu. Uma doença no pulmão.

Casemiro perdeu o apetite. Mas sabia que estava recebendo uma espécie de recado. E logo veio a fatalidade. A mensagem estava cifrada. A morte do porteiro era um anúncio da de Casemiro-avô. O jovem voltou a preocupar-se. Logo seria sua vez. Julgou que estava preparado. Chegou a sentir-se relaxado. Passou então a rezar, freqüentar missas – o que nunca tinha feito até então. Tornou-se religioso por um tempo. Pensava: “Pode ser que eu morra com 21… as estatísticas dizem que muita gente morre com 21 anos. Tenho que estar pronto”.

Pensava freqüentemente no avô, que havia enganado a morte por tanto tempo. Mas e a ele, quanto tempo restava? Por mais que rezasse, o medo não passava. Disciplinado como era, Casemiro temia quebrar a ordem natural das coisas. Além disso, apavorava a idéia de ver amigos e pessoas queridas irem-se, enquanto ele ficava, para sofrer e chorar por todos. De ficar para a maldita “semente”.

Passaram os 21 anos… vieram os 22… e os 23… Nada da morte chegar. Veio a época das festas e das noitadas. Dos bares e das madrugadas. Do rock’n’roll no último volume. Além de gostar muito do rock, Casemiro raciocinava que, misturando-se aos roqueiros, a morte não o erraria. Afinal, era grande o número de cantores de bandas que morriam aos 27 anos. Era algo quase cabalístico. Era questão, portanto, de esperar. Mais quatro anos e a agonia acabava. E, na certeza de que dos 27, no máximo dos 29, não passaria, Casemiro mudou.

Indisciplinado e irresponsável. Era o que havia se tornado. O namoro definhou. Julia, sentindo-se traída – poucas vezes acompanhava Casemiro nas farras – acabou deixando-o. Cada vez mais linda, não resistiu a um novo vizinho, que percebeu a solidão da moça. O antes tão interessado Casemiro perdeu o gosto pelos estudos. Há tempos havia abandonado a religião. Por emprego, não se interessava. A mãe era sempre vista a chorar, decepcionada com o comportamento rebelde e arredio do filho. Não lembrava mais o menino bom e disciplinado de antes. O pai, sempre ausente, em suas viagens, fazia pouco para mudar a situação: broncas esporádicas, quando estava em casa, e só. Mas o que todos ignoravam é que Casemiro havia se transformado pensando exatamente na ordem. Numa ordem invisível aos olhos, mas que devia ser mantida.

Casemiro às vezes lembrava-se do avô e de Gabriel. E pensava em como os dois foram sortudos. Principalmente Gabriel, que saltou as angústias todas da vida e partiu para a glória. Exatamente: glória. Todos que o conheceram se lembravam dele com carinho. Como bom filho e bom amigo. Mesmo Roberta, agora quase casada, chegou a comentar em como esperou uma atitude de Gabriel. Não sofreu as dúvidas e decepções que Casemiro estava sofrendo enquanto aguardava a morte gloriosa e coroada. Não viu o melhor amigo morrer. Não perdeu uma namorada. Não entrou em decadência, decepcionando a todos, tendo que se sacrificar para que o mundo se mantivesse nos trilhos.

“O que as pessoas guardarão como lembrança minha”, pensava Casemiro? A rebeldia, a preguiça, o desleixo… Casemiro resolveu que não ia mais esperar os 27 anos. Precisava acabar com aquilo tudo. Precisava por fim àquele sofrimento e ao medo que arruinaram sua vida.

Conseguiu um revólver, não se sabe onde nem com quem. Uma bala apenas. Girou o tambor e fechou-o. Apontou contra o peito e puxou o gatilho. Após o disparo, sentiu o corpo aquecer. Uma umidade estranha, quente, molhando o peito. Uma forte ardência acompanhada de calafrios. E então soube: não era imortal. E no seu último instante de consciência, sorriu: não precisava mais ter medo.

Mutum, 21 março 2009 – 16 maio 2009.

<!– /* Font Definitions */ @font-face {font-family:”Cambria Math”; panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:roman; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;} @font-face {font-family:Calibri; panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:swiss; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:-1610611985 1073750139 0 0 159 0;} /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-unhide:no; mso-style-qformat:yes; mso-style-parent:”"; margin-top:0cm; margin-right:0cm; margin-bottom:10.0pt; margin-left:0cm; line-height:115%; mso-pagination:widow-orphan; font-size:11.0pt; font-family:”Calibri”,”sans-serif”; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-bidi-font-family:”Times New Roman”; mso-fareast-language:EN-US;} p.MsoNoSpacing, li.MsoNoSpacing, div.MsoNoSpacing {mso-style-priority:1; mso-style-unhide:no; mso-style-qformat:yes; mso-style-parent:”"; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:11.0pt; font-family:”Calibri”,”sans-serif”; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-bidi-font-family:”Times New Roman”; mso-fareast-language:EN-US;} .MsoChpDefault {mso-style-type:export-only; mso-default-props:yes; font-size:10.0pt; mso-ansi-font-size:10.0pt; mso-bidi-font-size:10.0pt; mso-ascii-font-family:Calibri; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-hansi-font-family:Calibri;} @page Section1 {size:595.3pt 841.9pt; margin:3.0cm 2.0cm 2.0cm 3.0cm; mso-header-margin:35.45pt; mso-footer-margin:35.45pt; mso-paper-source:0;} div.Section1 {page:Section1;} –>

Os violeiros e o diabo

Gerson Castro

A quermesse ia ser boa! Dr. Vinhaes, o novo prefeito, havia feito gorda doação para a paróquia. Promessa de campanha que cumpriu com zelo. Porque a Deus e aos santos não se engana. Cumpre-se o prometido para resguardar a alma da danação. P’ra longe com essa história de cozinhar no caldeirão do inferno. Ave!

Por causa do donativo, a igreja estava linda com a nova pintura azul. Adivinhava-se os sorrisos dos santos nos seus pedestais. Não obstante o pano roxo os cobrisse, já o povo imaginava fogos, danças e comidas, tudo em honra a Nosso Senhor Jesus Cristo. É que os quarenta dias de penitência já se findavam. E havia quem dissesse que Cristo não gostava de festa. Ora, como não ia gostar de um festão, logo ele que jovem ainda fez água em vinho? Queria sim! Ainda mais sendo o festejo da glória dele e da salvação da gente cristã! Ele queria. E a população toda da cidadezinha também.

Quem não estava muito animado era Zeca do seu Nico. Seu Nico do armazém. Seu Nico – que era Nicolau no batistério – tinha Zeca, que de nascido era Zacarias – por causa do avô – como excelente violeiro. Ano passado, seu Nico saiu anunciando para quem quisesse ouvir que o filho era o melhor tocador de viola daquelas bandas. Que por ali não tinha quem fizesse um ponteio como Zeca. De tanta loa, o padre Jeremias resolveu que o moço tocaria na festa do padroeiro. Erro!

Talvez fosse nervosismo. Ou talvez Zeca não fosse tão bom como o pai dizia. Zeca não tocou nada certo. Errou na afinação, nas modas e repentes. A festa se salvou pelos préstimos dos irmãos Ramiro e João, que não eram da cidade, mas, como muitos ali, vieram de fora para a comemoração. Ramiro, de viola estendida na altura do peito, e João, dedilhando manhosamente o acordeão, fizeram o baile. Foi o maior arrasta-pé de que se teve notícia. Nem os mais velhos tinham visto algo assim. Naquela ocasião se disse que até o Padroeiro da cidade desceu e dançou, misturado ao povo.

Depois disso, Zeca amuou. Era visto apenas no armazém do pai, a carregar sacos e empilhar caixotes, sempre macambúzio e calado. Soturno, tomou raiva de festas. Não comparecia a nenhuma. À missa, não ia mais. Nem queria saber mais da viola.

E foi naqueles fins de quaresma que chegou por ali o Petrônio. Revólver na cinta e muitas mortes nas costas. Era matador. Sempre que aparecia numa cidade, vila ou povoado, morria um. Vinha encomendado. À sua visão, todos se perguntavam quem seria o próximo. Nos anos de política, era fácil, até, adivinhar o defunto. Nas eleições passadas, vencidas pelo Dr. Vinhaes, Petrônio não apareceu. Médico antigo, Dr. Vinhaes tinha feito muitos partos e era tido como boa alma. Ganhou fácil.

Petrônio entrou na venda do seu Nico e pediu uma dose da boa cachaça local. Quem estava na hora olhou de soslaio e tentou se afastar. Uns, mais medrosos, fizeram o sinal-da-cruz. Petrônio, no seu jeito abrutalhado, disse que não se preocupassem. Ia ficar até o dia da festa apenas. Deu noticias das outras partes: disse quem havia vencido os pleitos nas vizinhanças. E que estava folgado: nada de trabalho. Avisou ainda que a quermesse era aguardada. Estava ganhando fama. Tudo por causa do Zeca violeiro. Seu Nico gelou. Não ia querer ver o Petrônio, um pistoleiro desalmado, falar mal do seu filho. Surpreso, o velho Nicolau soube que a história correu pela metade. Falaram da festança, mas não falaram do Ramiro nem do João. A versão que corria é que Zeca era o melhor violeiro dali e que ele ia repetir o feito do ano passado.

O velho Nicolau inchou feito um sapo! Quanto orgulho! Mas sabia, no fundo, que a glória não era do Zeca. Mas era a oportunidade de livrar o filho da má-fama e desfazer a cena vergonhosa. Correu a chamar o rapaz. Contou tudo. E Zeca, gato escaldado que era, sabia que não valeria à pena. Que passaria tudo outra vez. O pai deu folga p’ra ele treinar e ensaiar. Zeca aceitou, mais pela vontade de se livrar do trabalho enjoado do que por gosto pela música .

Pensava em como poderia aprender a tocar de verdade. Teve medo. E se errasse? Não ia agüentar viver tudo outra vez. Até a Angélica, a menina que tentava conquistar, desinteressou-se dele. Ali, ou o peão era bom no tiro ou o era na viola. Nem de bodoque Zeca atirava. E estava ganhando a bela mocinha nas cordas do instrumento. Até o dia do já referido acontecido. E se Petrônio estava ali para matá-lo, a mando de algum pretendente? Pior: e se não matasse e ele tivesse que se esconder de novo? E João? E Ramiro? O que teria acontecido aos dois? Como e por que ninguém dos lugarejos em volta ficou sabendo da história?

Lembrou-se de um caso que o avô costumava lhe contar. De um caboclo apaixonado. Ruim de tiro que só ele. Como o próprio Zeca. Mas bom, muito bom, de viola. E que estava preparando uma contradança p’ra conquistar a moça que paquerava. Coincidiu que apareceu ali um violeiro dos bons. E que fez a dita moça suspirar. O tal caboclo então apelou p’ras artimanhas do Maligno. Arrumou um galo preto e cozinhou o bicho vivo até que seus olhos despregassem da cabeça. Sabia que o Rasga-Embaixo tinha olho de galo preto como moeda valiosa. Guardou as pelotinhas pretas num saco. E na noite de quinta pra sexta-feira da Paixão, encontrou o Cujo numa encruzilhada. Ali teve com ele uma aula de viola. Aprendeu a dedilhar como só o Capeta sabia. Deu a ele os olhos do galo e foi-se. No dia marcado, tocou como ninguém. Diga-se: tocou como se fosse o Demo. O outro violeiro deu seu instrumento de presente pro caboclo, em sinal de reconhecimento e foi embora. Nunca mais apareceu.

Lá foi Zeca arrumar galo preto. Pulou o muro de um quintal. Por pouco não foi visto. Azar: não tinha galo preto ali. Como fazer então? Arrumou uma d’angola. De noite, nem o Cramunhão ia ver que era olho de galinha e não de galo. Cozinhou a pobre… E guardou os valiosos – queria que assim o fossem – olhos. Depois de tudo pronto, pensou arrependido no que tinha feito. Judiação com o animal, que nada tinha a ver com aquilo tudo.

Foi até a igreja. Rezou e rezou. Imaginava os olhares de reprovação dos santos e dos anjos. O Padroeiro o encarava, por baixo do pano. Mas lá na frente, nos primeiros bancos, viu Angélica. Linda como só ela conseguia ser. Usava um simples e lindo vestido, de tecido humilde, estampado com pequenas flores azuis. Azuis como os olhos da bela morena. O nome dela dizia tudo. Só podia ter vindo do céu. Tê-la seria exatamente isso: chegar ao céu! Sentiu-se encorajado. Pediu perdão aos santos, mas ia precisar de um reforço. Nem que fosse vindo dos andares de baixo. Nosso Senhor que o perdoasse, mas até Ele teve que ter seu contato com o Coisa-Ruim antes da sua glória. Então lá ia ele, ter sua vez com o Pé-de-Bode. Além disso, sabia que São Gonçalo ia dar uma mãozinha. Não ia deixar Zeca ir p’ro inferno. Quando Angélica levantou-se e disse “Oi, Zeca”, na saída da igreja, sentiu-se encorajado. E perdoado.

Na noite de quinta, Zeca, pé ante pé, saiu sem fazer barulho. Tremia de medo. As pernas bambeavam. Suava frio. Mas não podia desistir. Senão o Bicho ia atrás dele. E como ia explicar p’ro pai Aquilo dentro de casa, enchendo as panelas de comida com bosta de porco? Encheu-se de coragem e foi. Fez o pelo-sinal e ficou, embaixo de uma árvore, esperando. Meia-noite. Nada de Diabo. Meia-noite e meia. E nada de Diabo. Será que o Torto não vinha? Será que não existia? Ah, existia, sim! Senão, quem mais teria tentado Cristo no deserto? E se não existisse, os santos também não. E não via sempre eles, os santos, ali, na igreja? Não rezava p’ra eles, afinal? Existia sim. De repente, pensou Zeca, o Diabo não veio porque ele havia se esquecido de avisar do encontro. Mas a história do vô Zacarias não falava nada de avisar sobre o encontro. E nem como seria o tal aviso. Com medo e com frio, Zeca resolveu ir embora. Quando se levantou, viu um vulto. Gelou. Quase desmaiou. A mancha escura em forma de gente vinha na sua direção. Trazia uma viola. Fez o sinal-da-cruz várias vezes e começou o Pai Nosso, gaguejando de pavor, atropelando as palavras. De repente, percebeu que era Petrônio. Teve mais medo ainda. E se morresse ali? E agora? E agora? O que fazer? Quando o matador-violeiro chegou perto, perguntou:

- Que faz aqui menino? Isso é hora de estar na rua?

- Vim fazer pacto com o senhor – disse Zeca, gaguejando e tremendo.

- Comigo? Eu lá tenho chifre e fedor de enxofre? Me respeite, moleque!

- Eu sei que o senhor é do Diabo! Se não é, anda perto Dele! É mensageiro Dele!

- Estou perto Dele como qualquer um está. Nessas minhas andanças vi muita gente que finge, que acende vela p’ra santo, mas quem tem acerto com o Cão! Eles também estão pertinho do Demo. Mais do que eu, que sou só um humilde trabalhador.

Zeca perdeu-se nos raciocínios. Então, se não tinha pacto, não ia tocar. E se não tocasse, não seria namorado da Angélica. Chorou.

- Seja homem! Tem tempo de sobra p’ra agradar Nosso Senhor! Vai viver muito p’ra corrigir o erro. O que é isso aí? – apontou a sacolinha de pano pendurada nos dedos de Zeca.

- Olho de galinha d’angola…

Petrônio riu escandalosamente.

- Foi por isso que o Coisa-Ruim não veio! Se não for de olho de galo, tem que ser rabo de cascavel! E cadê a galinha?

- Na panela, lá em casa…

- Faz assim: eu te ensino. Teu pacto é comigo agora. Amanhã vou lá e almoço a galinha.

- E como explico p’ro meu pai, você, Petrônio, matador, comendo na nossa mesa?

- Do mesmo jeito que ia explicar sua saída de noite. Dá seu jeito!

Petrônio era mesmo bom violeiro. Ensinou p’rum Zeca medroso de início, mas de grande talento. E, no primeiro canto de galo, foram embora. Zeca satisfeito, mas ainda com medo.

Cumpriu o combinado: no dia seguinte Petrônio apareceu no armazém. Mas não quis entrar p’ra almoçar. Zeca deu a ele a galinha, embrulhada num embornal. O pistoleiro disse que ia se embora. Desistiu de ficar. Não queria arriscar a alma desafiando alguém que tinha coragem de pactuar com o Demo.

No dia da festa, Zeca animou o baile. Tocou e dedilhou como nunca havia tocado antes. Quando parou p’ra tomar uma e se esquentar, chegaram os irmãos Ramiro e João, sabe-se lá de onde. Tocaram animadamente. Zeca nunca entendeu aquilo. Aliás, nunca entendeu muita coisa que aconteceu naquela semana. Mas entendeu que era hora de tirar Angélica p’ra dançar. E que devia uma doação p’ros santos. E p’ra Cristo, Nosso Senhor. Que devia estar ali também, transformando água em quentão e dançando.

Mutum, 05 abril 2009 – 26 abril 2009



Pedro

Gerson Castro

18 abril 2009

A aprovação de Mauricio no vestibular não foi surpresa. Mãe e irmão já sabiam que esse seria o resultado. E não poderia ser outro: enquanto os demais adolescentes se ocupavam em aborrecer os pais com noitadas e rebeldias, Mauricio dedicava-se ferozmente aos estudos.

Mauricio não fazia o gênero nerd. Mas desde o divórcio dos pais, optou por um comportamento exemplar, evitando aborrecimentos para a mãe, dona Amélia. Para o jovem, já bastavam as criticas que a mãe recebia em função da separação. Muitos diziam que uma mulher sozinha não seria capaz de criar dois filhos. Dois filhos homens. Logo seriam adolescentes. Não demoraria para que um deles aparecesse na casa da mãe com a noticia da gravidez de uma namorada. Mauricio arrogou para si a função de calar a boca daquela gente faladeira, que desconhecia os apertos em que viviam.

A mínima pensão paga pelo pai dos meninos não bastava para as despesas. D. Amélia sustentava os filhos com um pequeno salário de vendedora. As mínimas comissões eram poupadas, cada centavo, para pagar o estudo dos filhos. Mauricio, dono de incomum senso de justiça, acreditava que era necessário um sacrifício da parte dele também. Assim, aboliu farras e gandaias. Cresceu sério e responsável, dedicando aos livros cada minuto livre. Imaginava uma próspera carreira como juiz de direito, que glorificariam D. Amélia e a educação que dava aos filhos e poria fim aos comentários daquela gente que, para Mauricio, por não ter muito que fazer, se metia na vida alheia.

Mauricio, não era, no entanto, nenhum santo. Às vezes tinha uma imensa vontade de se livrar dos livros e apostilas. De sair pela noite. Tomar um porre. Ir à shows e festas. Namorar, irresponsavelmente, várias garotas ao mesmo tempo. Como via fazer os colegas da escola. Sentia vontade de sair de casa. De libertar-se das correntes e algemas que ele mesmo havia se posto. No entanto, Mauricio não sabia onde havia posto as chaves dos grilhões. Melhor, sabia sim. Era ele o próprio carcereiro. Mas a consciência pesava-lhe quando imaginava o desgosto da mãe, sempre às voltas com contas e dívidas e anunciando: “Esse mês vamos ter que apertar os cintos. Não sei de onde tirar dinheiro para pagar as contas”. Aí, lembrava-se de porque fazia tanto sacrifício. Literalmente, um sacrifício. Afinal, era a sua juventude, tempo certo dos desatinos e apropriado aos erros, que Mauricio abatia por meio dos estudos. “A golpes de apostila”, pensava. Mas, logo imaginava a carreira, a toga, o sucesso.

O esforço não poderia ter melhor resultado: segundo lugar geral nos exames. Primeiro colocado do curso de direito. Orgulho da mãe. Inspiração para o irmão mais novo. Renovação para os ânimos do próprio Mauricio, à beira de um surto. E a inveja dos primos. Talvez essa tenha sido a maior recompensa para Mauricio. Não ter uma namorada custava-lhe comentários maldosos. O próprio avô havia insinuado a homossexualidade do menino. E dizia para a filha: “Sabia que sua irmã achou uma camisinha no bolso do Bruno? Esse sim, é neto meu. Quinze anos e já anda com camisinha.” D. Amelinha sentia uma vergonha tremenda diante dos comentários do velho pai, machista incorrigível. E, por causa do comentário sobre a camisinha, que rapidamente espalhou-se pela família, tornando-se mitológico, Maurício desenvolveu um grande ódio por Bruno. E decidiu: “Farei com que ele exploda de raiva e inveja. Sentirei prazer quando receber, junto com meu diploma, a notícia de que Bruno é um pai desempregado”.

Movido a rancor e esforço, Maurício destacava-se na faculdade. Era sempre notado. Seus trabalhos, comentados. Suas apresentações, assistidas e elogiadas. No entanto, Mauricio não era o único naquele campus que chamava a atenção.

Pedro era o presidente do diretório acadêmico – o famoso DA – de direito. O autêntico revolucionário estudantil. Um Che caricato: camiseta vermelha, boina, jeans desbotado, barba por fazer, cabelos compridos. Sempre um livro a tiracolo; ora era O manifesto do partido comunista, ora O que é a propriedade privada. Para calouros e veteranos, tratava-se de um gênio, um líder, um visionário. Para as mocinhas do curso, fossem as bem-nascidas, fossem as bolsistas, Pedro era uma tentação, atraente em seu charme propositalmente despojado.

Para Mauricio, Pedro era um impostor, um charlatão, um enganador. Mauricio tinha certeza de que, se apostasse, ganharia fácil: nenhum daqueles exemplares surrados que aquele falso carregava tinha sido lido. Afinal, um sujeito metido em greves, manifestações, atos públicos e assembleias na mesma proporção em que estava presente a festas, calouradas, cervejadas, vinhadas e congêneres não deveria ter tempo para ler e estudar. O que explicava as notas medíocres. No entanto, sua presença e carisma magnetizavam. Sua voz, alta e potente, convencia e agregava. Durante os discursos, poucos – alem de Maurício – percebiam os erros cometidos por Pedro. O que para alguns significava ruptura com os dogmas da academia pequeno-burguesa e liberdade de pensamento, para Maurício eram simples falta de leitura e estudo.

Havia, no entanto, algo em Pedro que Maurício invejava. Maurício não conseguia entender como as garotas da faculdade não percebiam que aquele desmazelo era falso e milimétrico; algo montado. Não entendia como poderiam se interessar por um sujeito dissimulado como aquele. Um enganador. E por aí, chega-se a grande frustração de Maurício: sua virgindade, para ele mesmo um assunto mal-resolvido. Não que faltasse vontade. Mas Mauricio não era o mais charmoso. Não era feio, pelo contrário. Saiu ao pai: alto, olhos verdes e cabelos lisos, muito pretos, contrastando com a pele, claríssima. O que não tinha, porém, era carisma. O tempo que passou estudando perdeu-o em contato com o sexo feminino. Agora, a proporção parecia invertida. O tempo dedicado aos estudos tinha sido grande perda, já que sentia a carência e a necessidade que só uma mulher satisfaria. Qualquer mulher, desde que disposta a transar com ele. E na sua memória, não havia nenhuma em tais condições. E se houve, Mauricio a rechaçou, pensando no dever a cumprir. Lembrava-se, não sem certo rancor, das festas que deixou de ir para estudar. Da viagem que a turma da escola fez para Ouro Preto. Os relatos davam conta de que até o mais imbecil da turma, um certo Gabriel, havia ficado com uma garota. Lembrou-se de Bruno e, súbito, teve uma vontade de socar-lhe a cara gorda. Um murro para cada mulher nua que Bruno tivesse visto.

Mauricio criou nova obsessão: precisava se livrar daquela virgindade humilhante. Humilhante porque, imbecis como Pedro e Bruno tinham-na perdido sem um pingo de esforço. Enquanto ele, inteligente como poucos, não sabia como usar todo o conhecimento que tinha para atrair as mulheres.

Tomou então uma decisão. Passaria a freqüentar as reuniões do DA. Foi duro assumir. Mas o que Mauricio sentia era despeito. Inveja de Pedro, pelas mulheres que lhe ficavam próximas, à espera de um convite para uma manifestação e uma ida à sua casa para ver os folhetos que seriam distribuídos na próxima passeata. “Incrível” – pensava Mauricio – “em como podiam crer em imbecilidades como essa”. Imbecilidade, porém, que, naquele momento, era a grande vantagem de Pedro sobre Mauricio.

A chegada de Mauricio à porta do DA foi uma surpresa. Os que ali estavam não o esperavam. Nunca o esperaram. Conheciam o almofadinha, que nunca se misturava; o aluno critico, que parecia ter ácido no lugar de saliva: sempre a espreita com comentários destrutivos. Mauricio olhou o ambiente à sua volta. Livros e papeis desordenados, espalhados, sobre uma mesinha de centro e sobre velhas prateleiras prestes a cair. Cinzeiros cheios e um forte cheiro não identificado por Mauricio compunham o lugar. A sala, pequena, era mobiliada por um sofá, além da mesa. Nas paredes, cartazes, folhetos e recortes de jornal. Um ambiente caótico, que para Mauricio não fazia o menor sentido. Pedro encarou Mauricio.

E foi naquele mesmo instante, quando os olhares se encontraram, que Pedro foi assaltado por remotas memórias. Lembrou-se das notas baixas. Da antipatia conquistada pelo mau desempenho escolar. Das piadas e apelidos. Do escárnio e zombaria dos colegas. Das vezes em que quis brigar e bater, e das vezes e que, de fato, bateu e brigou. Desejou que todos os mauricios do mundo morressem naquele momento. E, dolorosamente, enquanto encarava o rapaz deslocado, ali na porta olhando a tudo com desprezo, Pedro pensou: “Por que eu não sou o Mauricio? Por que diabos, não sou como ele?”.

Mutum, 21 março 2009 – 26 abril 2009.